"A escola pública está asfixiada pela falta de investimentos e pela ineficiência. Mas, quando existe participação da comunidade, o desempenho de seu papel de ensinar fica mais fácil". Revista do Brasil.
É sempre a mesma história. O governo, responsável pela escola pública, não consegue fazê-la funcionar plenamente. Os anos passam mas as reclamações não trazem resultados. De repente, um bom samaritano otimista, cansado do fiasco escolar, provavelmente pai de um aluno de escola pública, tem a idéia "brilhante" de salvar pelo menos a escola onde o seu filho estuda, e assim comove a comunidade local e uma ou duas ONGs a partir para o ataque.
Veja mais esse trecho da reportagem de Cida de Oliveira e Vitor Nuzzi para a Revista do Brasil (http://www.revistadobrasil.net/educacao.htm): "Os pais, por não se apropriar[em] do estabelecimento como bem público, nem sempre participam para cobrar ou melhorar a qualidade do ambiente educacional."
Muito bem. Os pais estão errados em não cobrar a qualidade da escola em que seus filhos estudam, mas dizer que eles devem criar ações que a melhorem, se apropriando dela como bem público, é dar ao governo, responsável primário por ela, sinal verde para se eximir de tal responsabilidade.
É esperado da sociedade que ela use o bem público de forma que ele não se deteriore. Mas mantê-lo em pleno funcionamento é responsabilidade das autoridades. Reparos constantes devem ser feitos pelo governo, não pelos pais. Uma escola que não tem uma quadra de esportes não pode ganhá-la de presente das associações de pais, alunos e mestres - as APAMs. O problema está na raíz. A escola deveria ter sido entregue sem a quadra? Mas quem construiu a escola foi o governo, então por que não cobrar dele a conclusão da obra? Assim, com cobranças inteligentes, corretas e constantes, as autoridades pensariam duas vezes antes de entregar obras inacabadas. Seria burrice criar problema com uma sociedade ativa e presente, uma APAM atuante em cobranças honestas e fundadas.
Na escola que deu origem à reportagem de Cida e Vitor, escola municipal Aracy Muniz Freire, no Rio de Janeiro, a nova quadra de esportes que deve ser inaugurada esse mês foi "resultado de mais de três anos de mobilização".
Eu imagino que essa mobilização não tenha passado muito da arrecadação do dinheiro para a construção da obra, que provavelmente teve a participação do governo. Essa participação, segundo a reportagem "vai sendo complementada à medida que se comprove a necessidade" da escola. O governo federal repassa R$ 2.900,00 por ano para a escola, que é composta de 300 pessoas.
Eu devo ser mesmo muito pessimista, apesar de achar que na verdade eu tenho um olho clínico e vejo as coisas com uma lente de aumento. A participação da sociedade tem que ter como alvo o país inteiro. Lutar por uma quadra de esportes para uma escola em uma comunidade carente é um esforço louvável, um belo primeiro passo, mas é imediatista e egoísta. O mais apropriado é que essa força seja usada para pressionar as autoridades dia após dia a assumir as suas responsabilidades, com greves e boicotes sérios, exigindo que cada setor da siociedade faça a sua parte sem esperar que outros a façam em seu lugar.
Em toda história, jamais uma revolução foi alcançada sem o sacrifício de toda uma geração. No dia do boicote ao transporte coletivo, 18 de agosto, muitas pessoas vão pegar um ônibus para ir ao trabalho por que não querem perder o emprego. Estariam certas, se não fossem egoístas.
Se as empresas de ônibus tivessem uma receita de R$ 0,00 no dia 18, haveria uma chance de se preocuparem com o boicote, mesmo que não fizessem nada num primeiro momento. Se, então, o povo se unisse como um só povo, e realizasse um segundo boicote, numa segunda-feira, imaginem o que aconteceria!
Não dê folga ao governo. Você vai prejudicar todo o país pelo qual você se diz tão patriota (na copa do mundo, pelo menos)!
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
Folga para o governo
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